Batucada brasileira

Foto de Claudionor Junior: Samba-de-roda de São Braz

Agnes Mariano

A receita é simples: alguns amigos e uma música que todo mundo conhece desde a infância, mesmo não sabendo quem fez. Começa, então, o batuque, com balde, prato, garrafa e as palmas da mão. Todos cantam e logo alguém começa a dançar. Pronto, está formado o samba e essa brincadeira não tem hora para terminar. Todo mundo sorri, se emociona, num diálogo sem palavras. Quando termina, ao invés de cansados, estão todos renovados, alegres, mais confiantes. À primeira vista, o efeito parece misterioso, mas, na verdade, nada é mais compreensível, pois, quando tocamos e dançamos, estamos apenas celebrando a força ritmada que nos move, que nos mantém vivos. Satisfeito com a homenagem, o nosso palpitante coração dança mais rápido e dá um novo ânimo à nossa alma. Ou seja, como bem define a experiente sambadeira Dalva Damiana de Freitas:

  • Quando a gente samba, o nosso sangue sorri.

No Brasil colonial, ninguém precisava mais de ânimo do que os africanos escravos. Por isso, sempre que podiam, eles dançavam e cantavam. Nas senzalas, nas plantações ou cozinhas, com palmas, vozes, paus, cabaças ou ferramentas de trabalho, o que importava era fazer música e movimentar o corpo, pois, assim, a vida se tornava melhor. Essa música e dança, feita ao modo africano, era o lazer, o consolo e, principalmente, o momento do encontro, uma grande brincadeira cheia de improvisos, criada coletivamente. Uma música e dança nascida assim, com uma missão tão importante, só podia mesmo ser muito boa e contagiante. Tão contagiante, que encantou também os brancos e os índios, que entraram na roda, deram suas contribuições e, num dia qualquer, em algum ponto do Recôncavo baiano, dessa mistura toda surgiu aquilo que costumamos chamar de samba: uma dança, um tipo de música, uma coreografia, um jeito de se divertir e, dizem alguns, até uma forma de comportamento, que se alastrou por todo o Brasil.

Samba não tem dia, hora, nem local marcado. Surge a qualquer momento, em qualquer grupo. Mas, se foi programado, aparecem violas, violões, cavaquinhos, pandeiros, timbaus e outros instrumentos de marcação. Dançarinos e músicos se colocam em círculo. Olhos nos olhos, alternam-se no centro da roda, exibindo-se, e, de lá, convidam outro a participar da brincadeira. Na roda, há lugar para todos: jovens, adultos, crianças ou idosos. As mulheres têm lugar de honra e, em algumas rodas, só elas dançam, mostrando sensualidade, seduzindo. Nos versos curtos, que todos sabem de cor, canta-se com alegria o cotidiano, as ruas, os amores, os encontros e até a dor. Há espaço também para os improvisos, seja no canto, na dança ou na música.

Entretanto, foi preciso muito esforço para que o samba conseguisse se perpetuar. No tempo em que toda celebração que envolvesse percussão era chamada de “batuque” e proibida, a perseguição foi severa e quem se reunia para sambar ia parar na cadeia. As autoridades queriam eliminar do país tudo o que evocasse “costumes bárbaros”, mas não teve jeito, porque, no fundo no fundo, já estavam todos contagiados pelo samba. O samba surgiu na Bahia, mas se popularizou nacionalmente através do Rio de Janeiro que, com uma indústria fonográfica forte, teve um papel fundamental na divulgação dessa música. A Bahia continuou fazendo o seu samba e não demorou também a gravar e divulgar seus artistas. Alguns dos pioneiros dessa fase mais profissional do samba foram Riachão, Batatinha, Panela e Claudete Macedo. Depois, muitos outros nomes foram surgindo, fazendo o samba clássico ou seus derivados, pois a ritmia do samba está presente também no choro, bossa-nova, samba-canção, samba-reggae, pagode e, dizem alguns, em quase tudo o que foi feito musicalmente no Brasil.

Na Bahia, onde tudo começou, o samba permaneceu animando a vida cotidiana, nos quintais, nas festas profanas ou religiosas, durante o trabalho. As duas vertentes mais importantes, segundo os especialistas, são o samba-de-roda e o samba chula, onde a viola assume um papel central. Em Cachoeira, Santo Amaro, São Braz, Saubara e muitos outros municípios, o samba continua vigorosamente presente, como comprovam grupos como o “Samba-de-roda de São Braz”, o “Maculelê e Samba-de-roda de Santo Amaro” ou o “Samba-de-roda Suerdieck”. Em Salvador, o samba aparece nas festas de largo, nos bares, nas reuniões de amigos e continua alimentando o trabalho de antigos e novos artistas.

Na África e na Bahia, um ponto fundamental se manteve no momento de cantar, tocar e dançar: a roda, que relembra a importância do grupo e mantém o clima aconchegante de brincadeira familiar. Não é preciso saber dançar nem tocar para participar de um samba, basta querer participar, querer estar junto, celebrando a vida. Foi desse jeito que nossos avós fizeram os sambas que chegaram até os nossos dias.

  • Nos dando lições de sabedoria com palavras simples – como define o compositor Roque Ferreira.

Nos dias de hoje, fazer samba como esses não é tarefa fácil, garantem os músicos e compositores. Para muita gente, um bom samba só nasce quando se está em movimento:

  • Se sentar, não escreve nada. Tem que sair pra vida – garante Edivaldo Bolagi, um dos diretores da Associação de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia.

E há até quem diga, como o cantor e violonista Davizinho de Mutá, do grupo Barravento, que um bom samba-de-roda só surge mesmo no giro, quando se está tocando ou dançando em grupo, no meio de uma roda.

PREDILETOS DO SAMBA

  • Primeiro, tem que ouvir o toque. Depois, olhe pro meu pé e tente fazer igual. Aí, vá mexendo o corpo todo – ensina Alice Maria da Cruz.

Falando, até parece fácil, mas Mãe Alice teve um longo aprendizado para ser capaz de, com mais de 70 anos, deslizar com a suavidade e graça de uma mocinha. Começou a dançar ainda criança, nos sambas juninos que seu pai, um tocador de viola, organizava em Alagoinhas. Adolescente, saiu de casa e foi parar em Cachoeira, onde teve sua iniciação no candomblé e se aprimorou:

  • O candomblé deixa a junta toda mole, faz a gente dançar qualquer coisa.

Aos 16 anos, em Salvador, conheceu Mestre Bimba:

  • Ele já era famoso, viajava, fazia exibição e me botou no grupo.

Em pouco tempo ela se tornou a professora de samba e companheira do capoeirista, com quem viajou todo o país. Moradora do Alto da Santa Cruz desde 1953, Mãe Alice já perdeu as contas de quantos sambas organizou em sua casa, onde também funciona o seu terreiro, o Ilê Oyá Padê. Segundo ela, até hoje, o fundamental mesmo é sempre mexer o corpo, seja dançando ou fazendo caminhadas. Para quem ainda não sabe, ela explica a razão:

  • Sambar e dançar candomblé dá saúde.

Parece que é sempre assim: não adianta decidir um dia se tornar um sambador ou sambadeira. É preciso ter uma relação íntima com essa música e dança, um contato que freqüentemente começa no ambiente familiar, de forma descompromissada. Basta reunir um grupo de pessoas num fundo de quintal e pronto, ele começa a surgir. Se faltam instrumentos, arranja-se um balde, uma panela, um prato e o resto fica com as palmas e vozes.

  • O samba tem essa bondade, ele é tão simples que não tem lugar determinado e vai de qualquer jeito – conta Mestre Nelito, que há duas décadas comanda 60 instrumentistas como mestre de bateria do bloco carnavalesco Mudança do Garcia.

    Foto de Haroldo Abrantes: Mestre Nelito

Como brincadeira, diversão, o samba é generoso e acolhe a todos, mas ele tem os seus preferidos e não demora a mostrar quem são. Em Salvador, é possível encontrar vários deles: os talentosos e dedicados filhos prediletos do samba. Com um riso sonoro, a cantora Claudete Macedo explica de onde vem a sua intimidade com a música:

  • Nasci em ambiente de orixá. Minha mãe era macumbeira.

Cantando desde menina, subiu ao palco ainda no colégio e o seu vozeirão começou a se destacar.

  • Nunca tive orgulho disso, só deixava a vida me levar.

Aos 17 anos, foi ao Rio de Janeiro resolver um assunto familiar e, meio por acaso, sua carreira começou. Nessa época, o rádio vivia seu tempo áureo.

  • Lá, fiquei amiga de um rapaz que trabalhava na Rádio Nacional e ele me inscreveu no Programa de Calouros.

Nem é preciso falar sobre o impacto que a sua voz causou.

  • Voltei pra Bahia e fui tentar cantar em alguns lugares. Depois fui de novo pro Rio e cantei em todas as boates da Praça Mauá. Voltei, fui pra Rádio Excelsior e a Cultura. Uma força maior me levava e me trazia.

Numa dessas apresentações em rádio, a platéia a aplaudiu de pé e Claudete foi para as páginas dos jornais. Ainda nos anos 50:

– Um amigo me disse que estavam sem sambista na Rádio Sociedade. Fui pra lá e no ano seguinte já comecei a gravar. Só tirei o pé fora quando acabou o cast – conta ela, enquanto cantarola seus velhos sucessos com uma voz possante de causar inveja a muita gente que se considera cantor.

Claudete faz parte de uma geração que desbravou o terreno. O samba, que era visto até então como coisa de “pobre, preto, malandro e prostituta”, começava a conquistar espaços. No Rio de Janeiro, capital do país, as coisas avançavam rápido, mas, em Salvador, foi preciso esperar mais. Alguns dos pioneiros na profissionalização do samba foram Batatinha, Panela e Riachão. Este último compôs sua primeira música nos anos 30, ao se sentir desafiado com a seguinte manchete que leu numa revista: “Se o Rio não escrever, a Bahia não canta”. De fato, o samba carioca dominava a cena e influenciava o samba feito em todo o país. Admirador confesso do samba-de-roda, o compositor Roque Ferreira, cita Riachão e Tião Motorista como exemplos de sambistas baianos que começaram a levar esse tipo de samba para os palcos. Nos anos 60, finalmente, surgem as primeiras gravações, feitas pela gravadora JS e também os festivais de samba e muitos shows.

Riachão

Os grandes laboratórios para o samba feito em Salvador, além do ambiente familiar, eram as escolas de samba. Com a sua memória invejável, Mestre Nelito dá a lista:

  • Juventude do Garcia, Filhos do Morro, Filhos da Liberdade, Ritmo da Liberdade, Abafa, Diplomatas de Amaralina, Ritmistas do Samba e Vale do Canela.

Nelito foi ritmista da Filhos do Morro, mesma escola onde Claudete cantou para um grande público pela primeira vez. Já Riachão, além do aprendizado no samba familiar e no candomblé, com a mãe ialorixá, era da Juventude do Garcia.

  • Faltando seis meses para o carnaval, começavam os ensaios, todo sábado ou domingo – lembra Nelito.

Segundo ele, a semelhança com o samba carioca existia, mas não era total.

  • O nosso batuque é diferente, às vezes o instrumento é o mesmo, mas a forma de pegar e tocar é diferente. E o ritmo deles é bem mais rápido.

Os blocos de índio também eram responsáveis por lançar grandes sambas, chamados sambas de quadra. Mestre Nelito, que foi mestre de bateria do bloco Cacique relembra alguns dos compositores:

  • Celso, do Apache, Sílvio Mendes, Edinho Fumaça, Camelo e Melque Zedex.

Ele cita também os “programas de calouros” nos bairros, uma espécie de show improvisado: os candidatos se inscreviam e no final de semana subiam ao palco para enfrentar o público.

  • Aqui no Engenho Velho da Federação quem organizava tudo era seu Vivi.

As escolas de samba acabaram, os blocos de índio perderam a força, as rádios deixaram de ser as vedetes da comunicação, mas, mesmo assim, os rapazes e moças que fazem samba na Bahia foram conquistando espaço. A lista de sambistas baianos importantes é grande: Ederaldo Gentil, Nelson Rufino, Edil Pacheco, Valmir Lima, Roque Ferreira e grupos como Independentes do Samba e Os Tincoans. Valmir e Roque, aliás, são autores de canções que viraram hits nacionais em vozes de outros artistas. De Valmir Lima e Lupa, Alcione gravou versos como “Eu vim de Ilha de Maré, minha Senhora, pra fazer samba na Lavagem do Bonfim”. De Roque Ferreira, Martinho da Vila gravou “Namoradeira” e Zeca Pagodinho, o famoso “Samba pras moças”, entre outros. Clara Nunes, Beth Carvalho, João Nogueira, Fundo de Quintal e Dudu Nobre, que é seu parceiro em várias músicas, também gravaram canções de Roque, contrariando assim a manchete que tanto desagradou Riachão. Roque – que é de Nazaré das Farinhas e credita a sua formação musical aos sambas que ouvia a avó cantar – arrisca o motivo do sucesso das suas canções:

  • Eu fazia samba-de-roda pra mim, mas quase não mostrava, achava que ninguém ia gravar, por ser muito regional. Até que Rildo Hora começou a me pedir pra mandar justamente os sambas-de-roda. No Rio, eles não sabem fazer. O samba-de-roda tem uma linguagem característica, temas específicos, um jeito de falar dos nossos avós. As frases são antologias de sabedoria e é tudo brincadeira. Atingir o máximo é atingir o simples – diz ele, explicando como foi que começou toda essa história: numa roda.

MÚSICA NACIONAL

A festa só começava depois do anoitecer. Como iluminação, eles tinham a luz da lua, das estrelas e uma fogueira, perto da qual ficava meia dúzia de músicos com seus instrumentos de percussão. Se a festa era especial, providenciava-se mais luz, com os candeeiros feitos de barro e azeite. Ao primeiro toque do tambor, homens e mulheres se colocavam a postos, em círculo. Sobre o chão de terra, eles iam então se alternando no centro da roda, dançando sozinhos ou em pares, enquanto os outros acompanhavam com palmas.

  • A dança consiste num bambolear sereno do corpo, acompanhado de um pequeno movimento dos pés, da cabeça e dos braços. Estes movimentos aceleram-se, conforme a música se torna mais viva e arrebatada, e, em breve, se admira um prodigioso saracotear de quadris.

Quando dançavam sozinhos, convidavam outro a substituí-lo com uma umbigada, que chamam de “semba”.

Toda a cena foi descrita por viajantes portugueses que estiveram na África no século XIX, em Angola e no Congo, e transcrita pelo antropólogo Edison Carneiro em seu livro Samba de Umbigada. A semelhança com o nosso samba-de-roda é tão impressionante que não deixa dúvida: o samba é mesmo um filho legítimo das danças africanas, especialmente dos povos de língua banto. No Brasil colonial, as várias formas africanas de celebração ganharam todas o mesmo nome: batuque. Onde se plantava cana, tabaco, algodão, café e até nas minas de ouro havia negros. E, onde havia negros, havia dança e música, lembra Carneiro. Assim, os batuques foram se espalhando pelo país e se misturando com sonoridades e danças dos portugueses e dos índios, dando origem ao coco – no Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas – ao jongo, no Rio, São Paulo, Minas e Goiás e ao samba, no Maranhão, Bahia, Guanabara e São Paulo, afirma o pesquisador.

Uma mistura que não aconteceu de forma pacífica, pois, como demonstrou o historiador Jocélio Teles dos Santos, em seu texto Divertimentos estrondosos: batuques e sambas no século XIX, a elite da época estava longe de concordar com essa algazarra toda. Em fins de janeiro de 1879, por exemplo, houve uma confusão danada no bairro do Pau Miúdo, quando a polícia invadiu a casa de um barbeiro onde acontecia um samba. Houve resistência, o barbeiro até foi ferido e acabaram indo todos presos. No mesmo período, Santos encontrou relatos sobre a prisão de 23 mulheres e um homem na Conceição da Praia, pois estavam cometendo o crime de sambar. Tudo era considerado obsceno, ofensivo. Os sambas eram vistos como locais de orgia e bebedeira, dignos da mais severa perseguição, explica o pesquisador, que cita resoluções do Presidente da Província de 1838 e 1840, proibindo os batuques em qualquer lugar, “sob pena de quatro mil réis e oito dias de prisão”. A imprensa da época cobrava maior repressão aos sambas e batuques, denunciando a participação até de policiais nesses “divertimentos estrondosos”, inclusive dentro de um quartel, o Forte de São Pedro.

Apesar de tudo, o samba sobreviveu. Os negros eram a maioria da população e, o samba, a forma que eles conheciam de celebrar, conseguir se divertir, brincar. Assim, era o samba que animava as reuniões de amigos, os aniversários, as festas religiosas, como a do Senhor do Bonfim ou a de São João. E, apesar da condenação oficial, muita gente “bem nascida” também freqüentava os sambas. Ainda no século XIX, danças animadas e sensuais como o lundu, também de origem angolana, chegaram inclusive aos salões elegantes. Em seu livro Notícias da Bahia – 1850, Pierre Verger lembra ainda que, para governantes como o Conde dos Arcos, tolerar os batuques era uma estratégia política, acreditando que se tratava de reuniões de membros da mesma etnia, o que serviria “como o meio mais seguro de dificultar uma fraternização geral dos escravos e sua possível revolta contra os senhores brancos”. Mas o maquiavélico Conde estava errado, pois os sambas serviram, ao contrário, para irmanar, não só os africanos, mas todos os brasileiros.

Apesar da base africana, não há dúvida que o samba é natural do Brasil, onde descobriu novos instrumentos, coreografias e sotaques. Inúmeros pesquisadores são unânimes em afirmar que o centro de tudo, o local onde o samba de fato ganhou vida foi o Recôncavo baiano, onde a música estava nas plantações, na pesca, na hora de construir, no lazer. Nascido e criado na usina Cutinga, perto de Santo Amaro, onde a sua família viveu por gerações, Mestre Nelito relembra a sua experiência de cortador de cana:

  • A gente trabalhava em parelha, duas pessoas. Cada um pegava uma leira de 30 metros e aí começava a cantar pra descontrair. Um fazia a primeira voz e outro fazia a segunda e tinha o improviso.

Em áreas rurais de regiões como Mutá, Pirajuí e Encarnação, até hoje é o samba que cadencia o trabalho:

  • Na hora de fazer a casa de taipa, eles cantam o samba de barravento enquanto amassam o barro com os pés. Depois que terminam o trabalho, fica todo mundo alegre e aceleram o ritmo. Aí vira samba-de-roda – conta o músico e cantor Davizinho de Mutá, do grupo Barravento, que acompanhava tudo isso na infância.

Foto de Haroldo Abrantes: Davizinho de Mutá

Se o samba ajudava no trabalho, nada mais natural que fosse ele também que animasse as horas de lazer. Mestre Nelito conta que todo sábado, dia de pagamento na usina, tinha samba.

  • A gente ia com os pais, eles gritavam o samba e a gente fazia a segunda voz. E tinha que fazer certo, senão apanhava na frente de todo mundo.

Mas nada se comparava aos sambas dos dias de rezas:

  • A gente ia buscar sambadores de nome, só feras, como Leopoldo e Barroso – relembra Nelito.

O compositor, cantor e produtor musical J. Velloso conta que o samba dominava a cena também no ambiente urbano de Santo Amaro:

  • Estava presente em todas as festas da minha infância. Depois de qualquer reunião, solenidade, um começava a bater palma, outro arranjava um prato, uma faca, vinha um pandeiro e pronto. Quando eu estava com sono já dizia: “Ih, vai virar samba”. Com o tempo, torcia pra que tudo virasse samba.

Esses sambas se espalharam pelo estado e viajaram ainda mais longe, conta o músico e pesquisador Roberto Mendes.

  • Quando os saveiros do Recôncavo iam pras feiras levando farinha, quiabo, onde chegavam, também faziam samba.

Escravos ou negros alforriados baianos que foram parar no Rio de Janeiro em fins do século XIX formaram uma espécie de colônia baiana em bairros como Saúde, Cidade Nova e Lapa, onde, com habilidade, não deixavam de promover os seus sambas. Segundo Mestre Nelito, o coração do samba no Recôncavo é a região que inclui Santo Amaro, Acupe, Santiago do Iguape e Cachoeira. E foi de Cachoeira que saiu Hilária Batista de Almeida, ou Tia Ciata, a mulata baiana que, no começo do século XX, ensinou o Brasil a sambar.

  • A casa de Tia Ciata, babalaô-mirim respeitada, simboliza toda a estratégia de resistência musical à cortina de marginalização erguida contra o negro em seguida à Abolição. A habitação tinha seis cômodos, um corredor e um terreiro (quintal). Na sala de visitas, realizavam-se bailes (polcas, lundus etc.); na parte dos fundos, samba de partido-alto ou samba-raiado; no terreiro, batucada.

O trecho acima está no livro Samba, o dono do corpo, de Muniz Sodré. Casada com o médico negro João Batista da Silva, Tia Ciata promovia em sua casa festas onde estavam presentes os grandes músicos da época e foi lá, como conta Sodré, que:

  • […] surgiu Pelo Telefone, o samba que lançaria no mercado fonográfico um novo gênero musical. E os músicos do primeiro samba gravado foram recrutados entre os seus freqüentadores: Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Caninha e Heitor dos Prazeres e outros.

A gravação de Donga foi em 1917, mas antes dele, em 1902, o santo-amarense “Baiano” já tinha sido responsável pela primeira gravação feita no Brasil, o lundu Isto é bom, do baiano Xisto Bahia. Depois de tudo isso, não teve mais jeito, a música nascida na Bahia virou mesmo a base sobre a qual se sustenta a maior parte da música feita no Brasil.

BERÇO DO SAMBA

O som forte do atabaque de Tingo interrompe o silêncio. João Batista puxa algum samba antigo. Entram o pandeiro, reco-reco, agogô, tamborim, cento e cinco e maraca. As mulheres já estão em volta, acompanhando o ritmo com tabuinhas de madeira. Então, uma a uma, descalças, elas entram na roda: Nicinha, Elisdércia, Gabriela e as outras. Os primeiros movimentos, lentos, são uma saudação aos presentes. Com o olhar distante, elas se deixam guiar pela música. Com um jeitinho dengoso, inclinam o pescoço, rodopiam, tocam no chão, fazem a saia a voar, sacodem os ombros. Os pés, em passos miúdos, não param: ora amassam suavemente o solo, ora sapateiam. Como o corpo está todo relaxado, o arrastar constante dos pés no chão inevitavelmente provoca o famoso “requebrado” dos quadris. No grupo “Maculelê e Samba de Roda de Santo Amaro”, alguns já passaram dos 60, outros estão na casa dos 20 e há até habilidosas sambadeiras com 5 anos de idade. No Recôncavo, o samba é assim: democrático, acessível, uma festa para animar amigos e parentes, mas também se profissionalizou e almeja conquistar o mundo.

Foto de Claudionor Junior: Nicinha

O historiador Erivaldo Sales Nunes freqüentava o Recôncavo desde a infância, mas foi quando iniciou as pesquisas da sua dissertação de mestrado Cultura popular no Recôncavo Baiano: a tradição e a modernização no samba de roda, defendida em 2002 no Instituto de Letras da Ufba, que se deu conta plenamente da complexidade do seu tema. Nos livros, entrevistas e rodas de samba descobriu as variações rítmicas:

  • Existe o samba amarrado, mais lento; o corrido, mais acelerado e o barravento, que é intermediário.

E as coreográficas, como o “samba de velhos”, “samba de vira-mão” e o “samba duro”, onde são os homens que dançam. Ele nos conta ainda que “samba raiado” é aquele onde se usa um prato esmaltado e faca como instrumento – como fazia em Santo Amaro Dona Edite do Prato – e que “samba de partido alto” era a denominação dos sambas freqüentados pelos senhores de engenho. Nunes destaca também a forte influência da sonoridade dos candomblés de caboclo, presentes em todo o Recôncavo, e a importância da viola.

Nora de Popó, o famoso condutor de trole de Santo Amaro que resgatou e imortalizou o maculelê, Maria Eunice Luz ou simplesmente Nicinha conta que o samba-de-roda foi ganhando espaço aos poucos no grupo Maculelê e Samba de Roda de Santo Amaro, que já existe há décadas, com diferentes nomes.

  • Era só um sambinha depois do maculelê. Aí, a professora Maria Mutti teve a idéia de fazermos um grupo de samba.

O grupo cresceu e hoje:

  • Já tem 30, mas deveria ser só 15 pessoas. Se for fazer vontade, Santo Amaro toda é do grupo.

Um dos grandes atrativos é que desde 1982 começaram as viagens internacionais, que já os levaram aos Estados Unidos, África e vários países da Europa. Segundo ela, no Recôncavo, todos já nascem sambando:

  • Os mais velhos não param pra ensinar, vem do sangue.

No caso dos músicos, a didática às vezes era severa, como conta o percussionista Paulo Martins, mais conhecido como Tingo:

  • Com 8 anos eu ia na casa de candomblé do zelador Faninho. Lá, ele me botava num atabaque bem grande. Ia cantando e dançando, me mandava espiar os pés dele, o gingado do corpo, e tocar. Se eu errava, puxava minha orelha.

Já em Cachoeira, um dos sambas mais antigos começou entre colegas de trabalho: as operárias da fábrica Suerdieck, há mais de 40 anos.

  • O gerente sempre falava pra gente participar da festa da novena, porque tinha um dia que era da firma. Aí começou a idéia de fazer o samba. Minha avó era da Irmandade da Boa Morte, por isso botei a roupa de baiana, que ela usava e eu gostava. Até na hora do trabalho a gente pegava os caquinhos e ensaiava o samba. No dia da festa, trabalhava só até 2h da tarde e ia se arrumar. Mais tarde, começava o samba. Era pandeiro, viola, cavaquinho, violão, parecia o tapete dos Filhos de Gandhy. O povo foi gostando e ele nunca mais acabou – resume Dona Dalva Damiana de Freitas, fundadora do Samba-de-Roda Suerdieck, responsável pela sobrevivência do grupo até hoje, com seus filhos e amigos.

Foto de Claudionor Junior: Dona Dalva Damiana

Como percebeu Erivaldo Nunes, samba-de-roda, muitas vezes, é coisa de parentes e amigos, como acontece com a família Martins, de Nicinha, ou a de Damiana. Nesses casos, geralmente, os excessos são mais controlados – de bebida, briga a sensualidade:

  • O samba que eu conheci é muito respeitoso, ninguém fica se insinuando. Muitos sambam olhando pro chão, concentrados – afirma Davizinho de Mutá.

Mas Mestre Nelito conta que, antigamente, lá pelas tantas, às vezes tinha confusão:

  • Alguns iam com facão e deixavam escondido no mato. Se tinha discussão, metia a mão no facão, tinha gente cortada, metia pandeiro na cabeça do outro. Depois isso acabou, o pessoal foi ficando mais esclarecido.

Deve ter sido para evitar confusão que a chula manteve sempre suas regras, que a faz até hoje um dos estilos mais admirados de samba.

Ninguém sabe quem nasceu primeiro, o samba-de-roda ou o samba chula, mas não há dúvida que eles são parentes.

  • O samba corrido não tem lógica, sambam 10 ao mesmo tempo e é um samba atrás do outro. A chula tem pandeiros, uma timba, a viola e pode botar também violão e cavaquinho. São duas duplas cantando: um canta e o outro faz a segunda voz. Aí a outra dupla canta. Quando acaba de cantar, fica só a viola. É aí que a mulher sai no samba, uma só de cada vez. As outras só batem palma – ensina Mestre Nelito.

Em muitas festas do Recôncavo, o samba-de-roda e a chula se alternam:

  • Onde um está, está o outro, até porque a chula é mais difícil, tem que ter o pessoal preparado. O corrido é mais fácil, é só começar que todo mundo canta – diz Nelito, membro há mais de duas décadas do grupo de chula “Os vendavais”, que reúne santo-amarenses radicados em Salvador.

O nome sugestivo, como explica o Mestre, vem de uma simples constatação: onde eles chegam, arrasam tudo, é um vendaval.

  • Chula se faz em Santo Amaro, Acupe, Cachoeira, Santiago do Iguape, Engenho da Ponte, Calembá e Calolé. O resto é imitação – garante o Mestre.

E, até hoje, nesses locais é possível encontrar alguns dos virtuoses da chula, como bem sabe o compositor e cantor Roberto Mendes:

  • Tune era um velho violeiro de Acupe. Ele não mexia o anelar e o mindinho, por isso criou uma técnica próxima da renascentista, tocava com três dedos e sem unha. Aprendi com ele e toco assim até hoje.

Ele também não esquece do famoso Clarindo dos Santos, que fazia violas artesanais:

  • Um homem simples, sem método e extremamente dedicado. Afinava de ouvido, tinha um diapasão próprio, resolvia tudo na dominante. Ele tocando, era de chorar.

Enquanto solfeja e toca, Mendes nos dá ainda uma pista sobre esse tipo de samba:

  • A ritmia da chula é parecida com a dos instrumentos agrícolas, principalmente o facão e a estrovenga.

E foi em São Braz, distrito de Santo Amaro, que Mendes encontrou um paraíso da chula. Quem começou a história do grupo “Samba de Roda de São Braz” foram os irmãos Saturno. Aprenderam com os pais, cantando e tocando para se divertir nas festas ou enquanto plantavam e pescavam, sem nunca pensar em ir para o palco, contam João e Antonio. Além deles, o grupo reúne também Zé Alves Ferreira, Máximo da Silva, com sua voz grave e possante, o cavaquinho de Américo Santana, a viola de Lídio de Jesus, as percussões de Carlos Santana e José Carlos dos Santos e o acompanhamento luxuoso de várias sambadeiras. Mas a música deles é tão sincera, o pandeiro é tocado com tanta energia, a chula é gritada com tanto sentimento, que surgiram os convites para apresentações e para participar do CD e shows de Roberto Mendes. Para eles, que continuam trabalhando na “roça e na maré”, tudo continua como sempre:

  • Quando a gente toca parece que está em casa, pode ser pra mil pessoas, ninguém fica nervoso.

Foto de Claudionor Junior: Samba-de-roda de São Braz

Afinal, onde tocam, seja em São Braz, Salvador ou São Paulo, é sempre a mesma coisa: todos se juntam em volta e ninguém resiste ao apelo do samba. O segredo?

  • Dizem que a corda prima da viola tem feitiço. Quando toca ela, não tem quem agüente – contam os sambadores, para explicar porque o danado do samba nunca sai de moda.

SAMBA NOVO

Às 3h da manhã, ele saía para pescar com os outros homens de Saubara. Ficava atento ao modo como os pescadores se comunicavam, com gritos ritmados. Voltava e ia vender o peixe junto com os outros, aprendendo a anunciar seu produto com musicalidade. Com ouvidos atentos e coração aberto, conviveu com o povo, fez amigos, ouviu histórias e, assim, da vida, surgiram as cinco primeiras canções do grupo Sembagota. Os meses em que morou em Saubara, as muitas viagens retomando contato com seus parentes em Cachoeira e as peregrinações por outras cidades do Recôncavo não foram à toa. Além de buscar conhecer suas raízes, Edivaldo Bolagi, percussionista e compositor, sabia que, bebendo na fonte rítmica e no cotidiano simples e aconchegante do Recôncavo, encontraria os sons e palavras para dar o seu recado.

O samba nunca saiu de moda, garantem os especialistas da área, como o compositor Roque Ferreira.

  • Ele está na raiz das pessoas, não há como derrubar. Essa divisão rítmica é a mais pura expressão da cultura brasileira – diz Roque, que já teve 120 dos seus belos sambas gravados e deixou a publicidade para se dedicar só à sua arte.

Como gosta de dizer o músico Roberto Mendes, o samba é generoso, acolhe a todos:

  • Ele é a matriz, é um comportamento, e há várias vertentes desse comportamento: como o choro, um samba em forma de canção; ou a bossa nova, que é a ritmia do samba a serviço do requinte melódico da razão.

Mas, se alguns derivados do samba gozam de prestígio, outros, nem tanto. Parece não haver dúvidas de que, pelo menos no começo, o samba-de-roda foi a grande fonte de inspiração do pagode baiano, assim como o samba duro e o pagode carioca, como explica a etnomusicóloga e professora Katharina Doring:

  • Nos anos 70/80 o samba duro foi revitalizado pelo movimento dos sambas juninos que saiu de vários terreiros de candomblé nos bairros do Engenho Velho de Brotas, Liberdade, Engenho Velho da Federação e Garcia. Eram formados grupos, feitos campeonatos e shows, o que influenciou na profissionalização de muitos músicos.

Para Roque Ferreira:

  • A divisão rítmica do pagode até chega a parecer com o samba, mas as letras são de uma mediocridade intencional.

O compositor e produtor musical J. Velloso também critica esse aspecto, mas acredita que, pelo menos, o pagode “botou a juventude brasileira pra sambar”. Já Claudete Macedo, acha que:

  • Samba é tudo samba. Agora, claro que a gente não fica satisfeito quando vê essa coisa de bundinha, garrafinha. O nosso samba é mais clássico, civilizado, respeitável. Mas temos que valorizar a juventude, pra que eles dêem continuidade e muitos fazem coisas boas. O que eles precisam é pesquisar mais.

Muita pesquisa para realizar as suas misturas ambiciosas é o que se propõem a fazer os 13 integrantes do Sembagota, um grupo que reúne artistas com formação erudita àqueles que aprenderam a cantar e tocar em terreiros como Axipá e Afonjá. No Sembagota, o samba é um dos ingredientes, ao lado da rítmica do candomblé, MPB contemporânea e levadas carnavalescas, fazendo surgir uma música que não aceita ser rotulada como tradicional ou folclórica, segundo Bolagi:

  • Temos grande orgulho de resgatar o tradicional, mas sabemos que a tradição só se mantém através das mudanças que incorpora. Mesmo com alegria, nossa poesia é contemporânea, fala de problemas urbanos.

Outro herdeiro confesso do samba-de-roda, o grupo Barravento, tem feito constantemente a França sambar.

  • Nunca pensei em ser artista, apenas tocava o meu violão – conta Davizinho de Mutá.

Ele cresceu em Mutá vendo os sambas do candomblé de Ana Velha, ouvindo a viola de Tonho Gato

  • Que fazia os instrumentos e colava com bucho do peixe.

E participando das rodas que animavam todas as festas, até as juninas:

  • Lá não tem forró, é samba.

Só que, há 10 anos, esse funcionário público encontrou alguns parceiros, amantes do samba, da MPB e baião, e o grupo acabou surgindo. Sobre a experiência de tocar no exterior, ele conta:

  • Lá, os jovens e a classe média se interessam muito. Numa das nossas apresentações tinha até o prefeito de Paris. Aqui, o samba continua restrito aos ambientes mais pobres, ainda que esteja havendo agora um certo aumento do interesse, uma redescoberta.

Segundo Roque Ferreira, o preconceito contra o samba sempre existiu e continua existindo.

  • As gravadoras não queriam, mas tiveram que engolir o samba, principalmente depois de Martinho da Vila, que foi o primeiro a vender muito.

Há quem acredite que informação é o melhor caminho para minimizar o preconceito e melhorar a formação musical, como o produtor J. Velloso, que já lançou alguns discos de samba e se prepara para lançar mais alguns. Ele produziu com o músico Paquito os CDs de Riachão (indicado para o Grammy), de Batatinha (que ganhou o prêmio Sharp), também convidou “a diva do samba, Dona Ivone Lara”, para participar do CD da Irmandade do Rosário dos Pretos e lançou o CD de Edite do Prato.

  • Gosto de trabalhar com aquilo que é bonito e está escondido – explica ele, que tem nas mangas uma longa lista de outras pérolas para novos CDs.

CASA DO SAMBA

Nos últimos anos, com muito esforço, o samba de roda vem conquistando um pouco do espaço e respeito que merece. Em 2004, o Ministério da Cultura propôs a candidatura do Samba de Roda do Recôncavo Baiano à III Proclamação de Obras-Primas do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade, título conferido pela Unesco. Para que a candidatura pudesse ocorrer, foi realizada uma pesquisa extensa envolvendo uma equipe de pesquisadores coordenados pelo etnomusicólogo Carlos Sandroni. A candidatura, entretanto, gerou reações, críticas e calúnias, especialmente entre os aficcionados do samba carioca. Como explicou o carioca Sandroni em seu artigo Por que o samba de roda do Recôncavo?, não se tratou de “bairrismo do ministro baiano”, pois o objetivo inicial era candidatar o samba brasileiro, mas todos os consultores indicaram que essa candidatura não atenderia ao requisito de “manifestação em risco de desaparição”, o que certamente provocaria a sua derrota, como aconteceu com o tango argentino. Daí o escolhido foi o samba-de-roda, que, a despeito da sua importância, não freqüenta habitualmente jornais, TVs, não vende milhões de CDs e nem participa de shows milionários.

Polêmicas a parte, o samba-de-roda venceu. Ainda em 2004, foi registrado no Livro das Formas de Expressão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como bem cultural de natureza imaterial, atendendo à solicitação da Associação Cultural do Samba de Roda Dalva Damiana, do Grupo Cultural Filhos de Nagô e da Associação de Pesquisa em Cultura Popular e Música Tradicional do Recôncavo. E, em 2005, foi proclamado pela Unesco como patrimônio da humanidade. De lá para cá, muitas coisas aconteceram. O povo do samba se organizou na Associação dos Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia, que já conta com uma sede própria, inaugurada em setembro de 2007. A Casa do Samba funciona em Santo Amaro da Purificação, no Solar Subaé, um prédio suntuoso construído no século XIX, que foi tombado e restaurado pelo Iphan.

Apesar de tão nova, a Casa do Samba, que é um Pontão de Cultura, tem metas audaciosas. Almeja promover o intercâmbio, facilitar o diálogo, colaborar para a prosperidade dos sambadores, das sambadeiras e do samba, o que, inevitavelmente, enriquece a própria cultura brasileira. Entre as ferramentas de trabalho, materiais de pesquisa como gravações em vídeo e áudio produzidas pelo Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia e por pesquisadores, um auditório, um estúdio. Como metas, a realização de oficinas de música, dança, confecção de instrumentos, manutenção de um site, realização de apresentações, gravações, projetos. Está prevista até a instalação de um restaurante de comidas típicas, para colaborar na auto-sustentação da Casa. Democrático, adaptável e brincalhão, o samba agradece. Ainda que tardio, o apoio é oportuno e justo, afinal, mesmo sem autorização, dinheiro ou aplauso, ele nunca deixou de cumprir a sua missão de alegrar as nossas vidas.

10 respostas em “Batucada brasileira

  1. Pingback: Textos sobre artes | Agnes Mariano

    • Excelente a matéria. So pecou pela falta da inclusão do nome do grande sapateiro e compositor de sambas Nelson Babalaô, que morava no bairro do Pau Miúdo, em Salvador. Babalaô foi um dos grandes expoentes do samba baiano nos anos 60 e 70, ao lado de Riachão, Batatinha e Ederaldo Gentil.

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