Mudando o rumo da história

 

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por Agnes Mariano

Ainda era cedo. Os portões da Faculdade de Medicina da Bahia nem tinham sido abertos, mas já havia um movimento intenso de estudantes no Terreiro de Jesus. É que eles ardiam em curiosidade para conhecer o resultado do concurso para professor que, finalmente, seria divulgado. Os estudantes tinham acompanhado tudo de perto, lotando o salão nobre em cada uma das fases: prova prática, de didática e defesa de tese. O objetivo era evitar “marmelada”, afinal, eles sabiam que não seria fácil para o jovem médico negro Juliano Moreira vencer um concurso numa instituição com fama de racista, frente a uma banca examinadora majoritariamente escravocrata. A libertação dos escravos, com a assinatura da Lei Áurea, tinha acontecido há apenas oito anos. Foi por isso que, naquela manhã de maio de 1896, quando finalmente entraram no prédio, os futuros médicos mal puderam acreditar no resultado afixado no mural: ao todo, Juliano tinha recebido 15 notas dez. A vaga era dele.

Aquele foi um dia memorável para todos os estudantes, que comemoraram até altas horas a vitória do mérito sobre o preconceito. Juliano era famoso e querido desde os tempos de estudante, por sua modéstia e genialidade: tinha concluído o curso de medicina com apenas 18 anos de idade, com uma tese que se tornou conhecida internacionalmente. Agora, com apenas 23 anos, tinha conseguido superar concorrentes poderosos e se tornava o mais novo professor da faculdade. Mas, para esse rapaz – filho de uma doméstica e de um funcionário da prefeitura, que só assumiu o filho quando ficou viúvo -, a Bahia foi só o começo. Não demorou muito para ele ganhar o mundo e tornar-se o mais importante psiquiatra brasileiro. A história de Juliano, resgatada pelo psiquiatra e professor Ronaldo Jacobina, ao contrário do que se pensa, não foi um exemplo isolado. Mesmo antes da abolição da escravatura, muitos negros e mulatos baianos também conseguiram vencer obstáculos que pareciam intransponíveis e entrar para a galeria dos mais importantes engenheiros, advogados, cientistas sociais e médicos do Brasil. Mudar o passado era impossível, mas o futuro, eles sabiam, dependia do que cada um fizesse.

No Brasil de antigamente, estudar era difícil para qualquer um. Portugal fez tudo o que pôde para retardar o desenvolvimento científico na sua colônia. Era proibido abrir faculdades, imprimir jornais e livros. As poucas escolas não eram reconhecidas por Lisboa e, o que existia, limitava-se ao aprendizado artesanal, das “belas letras” ou estudos teológicos. As coisas começaram a mudar quando a família real precisou refugiar-se no Brasil, em 1808. De um dia para o outro, passou a ser importante tornar o ambiente mais agradável, civilizado, suportável. Ao longo do século XIX, as alterações no sistema educacional foram contínuas, mas ainda insuficientes para mudar o quadro. O censo de 1870 informa: cerca de 85% dos brasileiros eram analfabetos. Claro, a situação era especialmente grave entre os negros e pior ainda entre os escravos. Havia até uma lei proibindo estes últimos de estudar.

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Quem era rico apelava para os colégios internos e depois mandava seus filhos para Coimbra ou Lisboa, atravessando o Atlântico por 60 dias. Quem não dispunha de recursos, tinha que disputar uma das pouquíssimas vagas nas escolas locais e então prestar o vestibular em alguma das faculdades que, lentamente, começavam a surgir: Medicina, Direito, Filosofia, Belas Artes, Politécnica, Odontologia, Farmácia e Ciências Econômicas. “Estudar era um luxo. Mesmo depois de 1827, quando o Império decreta a criação de escolas primárias em todas as cidades, o sistema era precário, muitas funcionavam na varanda ou sala da casa do professor, quando havia”, explica a pedagoga e gerente de pesquisa da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Jaci Menezes. Como era preciso ter dinheiro e tempo livre para estudar, as únicas opções eram conseguir apoio de alguém ou escolarizar-se por conta própria. Para se sustentar, quem tinha muita sorte ingressava no funcionalismo público ou, então, aprendia um ofício manual: sapateiro, pedreiro, pintor, marceneiro.

Essas eram as opções possíveis e foi por esses caminhos tortuosos que eles conseguiram o sucesso. O pintor, professor, jornalista, artista plástico e funcionário público Manoel Querino – autor de trabalhos pioneiros na antropologia e história da arte – e o escrevente, advogado e parlamentar Antonio Pereira Rebouças se enquadraram entre os autodidatas. O engenheiro, geógrafo, cartógrafo, geólogo e historiador Teodoro Sampaio e o engenheiro, abolicionista e escritor André Rebouças – construtor das primeiras docas do país e autor de propostas reivindicando reforma agrária e escolarização para os ex-escravos – estão entre os que tiveram a sorte de obter uma formação de qualidade com a ajuda de familiares. Já o psiquiatra Juliano Moreira e o pediatra Martagão Gesteira cresceram, se formaram e se destacaram na Bahia, sendo depois convidados para projetos de âmbito nacional.

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Nada de lamentações, complexos, receios ou hesitações. A história desses homens e algumas mulheres é marcada pela disposição para viver o seu tempo, enfrentando o que fosse necessário. Desejando ser acima de tudo cidadãos brasileiros, não mitificavam a África perdida e também não esqueceram de trabalhar em prol de quem mais precisava, o povo. Também não se fecharam em guetos: tiveram amigos e amores de todas as cores e classes. Frente às injustiças e aos preconceitos que ameaçaram obstruir os seus caminhos, eles agiram com elegância e energia. Em 1685, um grupo de “moços pardos” baianos mandou um ofício diretamente para a corte portuguesa, reivindicando o direito de freqüentar o Colégio dos Jesuítas, única instituição de ensino na época. E conquistaram esse direito, conta Jaci Menezes. Em 1960, o geógrafo Milton Santos também precisou solicitar à justiça que garantisse a realização de um concurso para professor na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia. O diretor tinha suspendido o concurso para evitar que Milton ingressasse na universidade, conta a geógrafa e professora Maria Auxiliadora Silva.

Foi passando, então, pelas escolas disponíveis e completando a sua formação com o acervo de bibliotecas, viagens e experiência de vida, que esses jovens baianos se tornaram profissionais brilhantes e cidadãos úteis. Médicos como os irmãos George e Cleonice Alakija ou Perceval e Esmeralda Vasconcelos, escritores como Édison Carneiro. Foram brilhantes e corajosos, mas também tiveram sorte, porque, na Bahia e no Brasil, o funil do acesso à educação de qualidade continua muito estreito. Até hoje.

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HOMENS DAS LETRAS
Filho de operário deveria ser operário, filho de pobre deveria ser pobre. Com a vida difícil que se levava naquele tempo, como uma pessoa de origem humilde podia pensar em gastar horas na frente de um livro? Quase todo mundo concordava com esse princípio, mas havia quem tivesse a ousadia de discordar. Em geral, eram membros de famílias que já tinham conquistado a liberdade antes da abolição e estavam, há algumas gerações, em busca de prosperidade e instrução. Na Bahia do século XIX, a grande aspiração era tornar-se bacharel e foi dessa forma, tornando-se hábil na relação com as palavras escritas e faladas, que começou a ascensão de muitos negros e mulatos.

O calor de Salvador era o mesmo de hoje em dia, mas os bacharéis não se importavam e enfrentavam as ruas com suas bengalas, guarda-chuvas e ternos. Além do figurino, a marca dos bacharéis era o palavreado rebuscado, lapidado em anos de estudos, e o gosto pelas leis. O risco de perder-se em discursos vazios – cultivando apenas o amor à eloqüência e à verborragia – era grande e a maioria não foi além disso. Alguns, entretanto, souberam usar o seu domínio das palavras de forma proveitosa. Autodidatas ou não, alguns advogados, jornalistas, escritores e professores dessa época conseguiram ajudar muitas pessoas, envolveram-se em causas importantes e realizaram valiosos estudos aspectos da nossa história e costumes que permaneciam desconhecidos até então.

Os irmãos Rebouças nasceram ainda no tempo das escolas de primeiras letras e aulas régias, criadas pelo Marquês de Pombal após a expulsão dos jesuítas. A escola primária, até que eles conseguiram cursar – em Maragogipe, onde viviam -, mas as “aulas régias” eram só para quem sonhasse com estudos mais avançados em Portugal. Filhos do alfaiate Gaspar Rebouças e de Rita Basília, esses rapazes mulatos – José, Antonio, Manuel Maria e Manuel Maurício – tinham os pés no chão e logo pararam de freqüentar a escola para trabalhar. Mas não pararam de estudar. Antonio e Manoel Maurício conseguiram emprego como escreventes de um cartório e fizeram desse trabalho a sua escola. Por enquanto, vamos nos deter apenas na trajetória de Antonio, que, “compulsando autos, lendo processos, foi-se apaixonando por tudo que dizia respeito a leis, começando a estudar o assunto em obras emprestadas ou adquiridas”, conta o historiador Loureiro de Souza, no livro “Baianos Ilustres”.

 

 

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Aos poucos, ele foi ganhando coragem e começou a advogar na condição de rábula. O seu talento era tamanho que, em alguns anos, Antonio tornou-se secretário de governo, elegeu-se deputado duas vezes, recebeu o direito de advogar em todo o território nacional e foi nomeado conselheiro do imperador D. Pedro II, passando a residir no Rio de Janeiro. São famosas as suas intervenções em temas polêmicos, que lhe custaram muitas perseguições: contra a pena de morte, os traficantes de escravos da Bahia e os falsificadores de moedas. Como se não bastasse, Antonio foi também o pai de André Rebouças, um dos homens mais atuantes do seu tempo, como engenheiro e abolicionista.

Outro rábula mulato que fez história foi o major Cosme de Farias. Nascido em 1875, em Paripe, subúrbio de Salvador, ele foi também jornalista, poeta, funcionário público, deputado estadual e vereador. Na sua época, já existia o Liceu Provincial, “que depois passou a se chamar Colégio Central e foi a única escola pública de ensino secundário na Bahia, de 1837 até o começo do século XX”, explica a pedagoga Jaci Menezes. Mas, provavelmente por falta de recursos, Cosme de Farias só estudou mesmo até o primário e completou sua formação na vida.

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Quem tem mais de 40 anos, certamente ouviu falar de Cosme, que viveu quase 100 anos. “Eu cheguei a conhecê-lo. Ele aparecia em todas as solenidades cívicas com um caminhão escrito ‘Abaixo o analfabetismo’. Tinha o dom da oratória e era de uma bondade incrível. Eu vi uma pessoa chegar até ele, dizendo que precisava de um cinto. Ele tirou o próprio cinto e deu. Depois amarrou a calça com um barbante e seguiu em frente”, conta o engenheiro, escritor e poeta José Carlos Limeira. Na sua cruzada pela educação, Cosme fundou e dirigiu a Liga Baiana contra o Analfabetismo, mandou imprimir e distribuiu milhares de cartilhas, manteve várias escolas primárias, arrecadou e doou material escolar.

Advogando, Cosme defendeu milhares de réus pobres e nunca acusou nenhum. Segundo Jorge Amado, “seu escritório de advocacia, uma pequena porta na oficina de um remendão de sapatos, era, sem dúvida, o mais movimentado do Brasil. Ali, ele redigia com a letra grossa, desigual e difícil as razões dos seus clientes gratuitos”. E, para completar sua batalha, publicava nos jornais da época a coluna “Linhas Ligeiras”, onde fazia apelos, comentários e críticas, lembra Amado. Das prisões, delegacias e jornais, Cosme chegou aos palanques, mantendo-se sempre fiel à sua luta pelos pobres. Não é à toa, então, que o bairro onde ele morava ganhou o seu nome.

Entre os autodidatas do século XIX, Manuel Raimundo Querino certamente foi o mais renascentista de todos. Escrevendo, discursando ou desenhando, foi competente em todas as profissões em que atuou: pintor, decorador, designer, projetista, político, jornalista e escritor. Mas foram as suas pesquisas e artigos sobre a cultura negra na Bahia que o imortalizaram. Registrando costumes e recolhendo depoimentos ao longo de toda a vida, Querino foi um dos pioneiros da antropologia nacional. Ouvindo os últimos homens e mulheres que tinham lembranças da África, ele evitou que informações preciosas se perdessem no tempo. E, sendo ele próprio negro, introduziu um elemento importante na forma de tratar esses assuntos: o respeito.

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Foi um professor da Escola Normal, o bacharel Manuel Garcia, quem acolheu o pequeno Manuel. Com apenas quatro anos de idade ele tinha ficado órfão. Seu pai, um carpinteiro, e sua mãe foram vítimas da epidemia de cólera que atingiu Santo Amaro em 1855, conta o artista plástico e professor de História da Tecnologia e do Desenho Industrial da Uneb Jaime Sodré, autor do livro “Manuel Querino, um Herói de Raça e Classe”. Aos 17 anos, com sede de aventura, alistou-se como recruta. Depois de passar por Pernambuco e Piauí, acabou envolvido com a Guerra do Paraguai, mas escapou de ir parar na linha de frente por causa da boa caligrafia e corpo franzino: preferiram aproveitá-lo como escriba do batalhão.

Quando conseguiu voltar à Bahia, empregou-se como pintor e estudava à noite: português, francês e desenho, sua grande paixão. Primeiro no Liceu de Artes e Ofícios e depois na Academia de Belas Artes. Criado em 1872, o objetivo do Liceu era “dar educação profissional e literária” aos filhos dos artífices, explica Sodré, enquanto a academia, fundada cinco anos depois, por um dos professores do Liceu, o espanhol Miguel Cañizares, tinha uma pretensão assumidamente artística. Não restaram registros da obra artística de Querino, mas ele deixou um livro fundamental para os interessados em história da arte – “Artistas Bahianos” -, com biografias de artistas de várias épocas.

A paixão pelo desenho e pintura foi só um dos seus interesses. Além de dar aulas de desenho e prosseguir com seu trabalho como pintor, Querino envolveu-se na política. Engajou-se no movimento abolicionista, participando de reuniões, escrevendo artigos, e foi membro da Sociedade Protetora dos Desvalidos, que comprava alforrias. Em seguida, naquele delicado momento de “transição do regime escravocrata para um novo”, como define Sodré, Querino trabalhou ativamente pela causa trabalhista. Fundou dois jornais, foi sua a idéia da criação do Partido Operário e participou da Liga Operária Baiana. Daí chegou à Câmara Municipal, onde teve um mandato.

O reconhecimento à obra de Querino só veio, e ainda timidamente, após a morte. Em vida, sobreviveu como funcionário da Secretaria da Agricultura, “onde foi consecutivamente preterido em todas as ocasiões em que lhe era de justiça a promoção”, conta Arthur Ramos, organizador do seu livro “Costumes Africanos no Brasil”, publicado postumamente. Quem melhor caracterizou a importância e desconhecimento em relação à obra de Querino foi Jorge Amado, que se inspirou nele para criar um dos seus melhores personagens: Pedro Archanjo, o funcionário público que ousava escrever sobre costumes afro-baianos contradizendo o grande sábio da época. Esse foi, de fato, um dos méritos de Querino, trazer um olhar novo sobre essas questões, que vinham sendo tratadas principalmente pelo médico Nina Rodrigues, um homem dedicado, mas que compartilhava, em boa medida, dos preconceitos da sua época. Querino criou seus próprios métodos, arriscou-se, acertou, errou, mas fez tudo com a sensibilidade que só os grandes pesquisadores sabem ter.

ENGENHEIROS DO BRASIL
O autodidatismo até que podia funcionar no aprendizado das letras, mas como aprender a erguer pontes, construir portos e redes hidráulicas sem estudar em boas escolas? Na Bahia do século XIX, os mestres-de-obras eram os construtores mais qualificados e alguns deles, como Manuel Friandes, se destacaram bastante: foram obras dele, por exemplo, o Mercado do Ouro, a fábrica do Curtume Cabrito e a Igreja da Lapinha que, segundo a tradição oral, mais parece uma mesquita pelo fato do construtor ser de origem malê, isto é, africano islâmico. Para aprender mais, entretanto, o jeito era ir para a capital do país, o Rio de Janeiro, e estudar engenharia. Esse foi o percurso dos baianos Teodoro Sampaio e André Rebouças que, além de engenheiros brilhantes, também foram cidadãos de um civismo incomum.

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Pouca gente sabe, mas o baiano André Rebouças foi um dos mais importantes mentores do movimento abolicionista brasileiro. André não era um grande orador, nem político, mas “encarnou, como nenhum outro de nós, o espírito antiescravagista, sacrificando tudo, sem exceção, que lhe fosse contrário ou suspeito”, definiu Joaquim Nabuco. Sua proposta era muito mais ampla do que apenas a libertação: produziu livros e documentos mostrando a necessidade de mudar a estrutura agrária do país, da doação de terras para os libertos, da educação técnica e industrial para os filhos dos lavradores, enumera a pedagoga Jaci Menezes. Tudo isso, vindo de um homem que poderia ter se perdido nas delícias da corte, pois tinha acesso irrestrito à família imperial desde a infância ou sucumbido ao charme da Europa, para onde viajou várias vezes. André, entretanto, só se devotou ao interesse público, às causas sociais, a trazer progresso para o Brasil.

Filho primogênito do conselheiro Antonio Rebouças – conhecido como “representante da população mulata” -, André nasceu em Cachoeira, em 1838. Por causa das perseguições que seu pai sofria, a família precisou se mudar e, com apenas oito anos, já estava morando no Rio. O que acabou sendo vantajoso, pois ele pôde ter acesso a boas escolas e professores. Com 22 anos se formou em engenharia e, dispondo de uma bolsa, logo em seguida foi para Europa completar os estudos. Lá, estudou com afinco o que havia de mais novo: fundações com ar comprimido, engenharia de viadutos, construção de diques e vias férreas. Do ano seguinte, quando retornou ao Brasil, até o final da sua vida, André empenhou-se em numerosos trabalhos de engenharia por todo o país que o credenciaram como um dos mais importantes engenheiros que o Brasil já teve.

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Apesar das boas relações, seu pai sempre teve uma situação financeira delicada e foi com muito esforço que André conseguiu ir aprimorando a sua formação de engenheiro, no Brasil e exterior, e crescer profissionalmente, com a implantação pioneira de técnicas e equipamentos na construção civil nacional. Nesse campo, atuou como engenheiro e empresário – projetando e acompanhando obras em vários estados brasileiros, principalmente no setor portuário e obtendo financiamentos com o capital nacional ou estrangeiro – e como professor ativo na Escola Politécnica. A parte mais difícil, entretanto, era lidar com os trâmites políticos, com as barreiras burocráticas e perseguições orquestradas por ministros, parlamentares e empresários concorrentes, que tentaram derrubá-lo, inclusive com campanhas difamatórias que apelavam até para o preconceito racial.

Depois de alguns anos, André diminuiu a sua atuação como empresário, mas já tinha conquistado então prestígio político, boa situação financeira e trazido grandes contribuições à engenharia brasileira. Ele construiu, por exemplo, as primeiras docas do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Paraíba e Maranhão, junto com seu irmão, também engenheiro, fez o sistema de abastecimento de água do Rio e implantou núcleos coloniais na região sul, enumera o pesquisador Nei Lopes.

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O interesse por questões sociais e econômicas sempre existiu: desde a década de 1860, por exemplo, ele já tinha propostas sobre a emancipação dos escravos. Mas foi principalmente depois de ver de perto os horrores de que os homens são capazes na Guerra do Paraguai (1864 a 1870), que as causas sociais ganharam maior peso na sua vida. Tornou-se professor, escrevia para jornais, conseguiu que fosse construída uma escola noturna para trabalhadores e intensificou o seu engajamento na campanha abolicionista. Não media esforços como intelectual, articulador político e financiador, atuando com seus artigos em jornais, arregimentando aliados importantes, organizando eventos, seminários, participando de congressos, além de ser o mentor de um grupo cujo nome mais conhecido é o de Joaquim Nabuco.

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“Quem possui a terra, possui o homem”, escreveu André Rebouças em 1890. Nesta frase, ele sintetizava a sua concepção de que a efetiva integração social dos ex-escravos e a prosperidade do Brasil dependiam fundamentalmente da modificação da nossa estrutura fundiária, com a implantação da reforma agrária no país, acompanhada de incentivos e tecnologia. E mais, como sempre fazia, dedicou-se exaustivamente ao tema, produzindo uma proposta detalhada e ampla, conhecida como “Democracia Rural Brasileira”. Por conta do seu hábito de escrever, André Rebouças produziu um vasto material que esclarece detalhes da sua vida, seus pensamentos, da época e das personalidades com quem conviveu. Nas últimas décadas, alguns pesquisadores produziram livros baseados nesse acervo, sendo o mais recente deles “André Rebouças – Reforma & Utopia no Contexto do Segundo Império”, da historiadora Joselice Jucá, já falecida, que teve acesso irrestrito aos diários, correspondências, manuscritos, artigos e livros de Rebouças.

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Segundo Jucá, os pontos centrais da proposta de Rebouças eram a eliminação dos latifúndios, que seriam divididos em propriedades menores, de 20 hectares, e a “centralização agrícola”, um sistema coletivista para organização, beneficiamento da produção e aperfeiçoamento. Isto é, um grupo de pequenas fazendas organizadas em torno de uma “fazenda central”, que seria responsável pelo aperfeiçoamento tecnológico (dispondo inclusive de engenheiros), processamento industrial (para beneficiar a produção antes da venda) e escoamento da produção. Ele tratou ainda, detalhadamente, do papel do governo, capital externo, exportação, juros, impostos, necessidade da educação e até previu os problemas sociais que surgiriam se nada fosse feito e a população se tornasse um batalhão de sem terras: ex-escravos negros e os novos “escravos brancos”, os imigrantes pobres importados pelos fazendeiros de café com falsas promessas. “A escravidão não está no nome, mas sim no fato de usufruir o trabalho de miseráveis pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome. Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”, dizia Rebouças.

Com a Proclamação da República, o golpe dos militares em 15 de novembro, apoiados pelos proprietários de terras temerosos de que se expandissem as reformas deflagradas com o 13 de maio, terminou a Monarquia no Brasil. Amigo íntimo da família real, principalmente de D. Pedro II, André os seguiu, indo morar na Europa. Preferiu partir, tanto por sua repulsa ao militarismo, quanto para acompanhar seus amigos no exílio. Da Europa, continuou acompanhando os acontecimentos e escrevendo em jornais. Nos seus últimos anos de vida, seu interesse estava voltado para as colônias portuguesas na África, onde descobriu problemas similares aos brasileiros e lutou para implantar a sua Democracia Rural. Viveu lá por seis anos, até que, em 1898, foi encontrado morto, ao pé de um rochedo, num acidente nunca explicado. No Brasil, as duas maiores capitais homenageiam os irmãos Rebouças, com a Avenida Rebouças, em São Paulo, e os túneis André Rebouças e Antonio Rebouças, no Rio de Janeiro, mas para a maior parte dos brasileiros, inclusive os bem informados, André Rebouças ainda é um desconhecido.

Teodoro
A história de Teodoro Sampaio não teve um final tão trágico, mas é igualmente surpreendente. O bebê nasceu em 1855, numa encantadora região do recôncavo baiano, na fazenda Canabrava, onde hoje há um município chamado Teodoro Sampaio que, na época, fazia parte de Santo Amaro da Purificação. Entre os pesquisadores, quase todos concordam que a sua mãe era escrava e se chamava Domingas da Paixão. Quanto ao pai, há dúvidas: o senhor de engenho Francisco da Costa Pinto, ou o irmão deste, Manuel Lopes, mais conhecido como Visconde de Aramaré. Há outras versões, atribuindo a paternidade a religiosos: ou o padre Joaquim Pinto, responsável pela capela do engenho, ou o padre Manuel Fernandes Sampaio. Esta última versão é a defendida pelo historiador José Carlos Barreto de Santana, que prepara uma biografia de Teodoro.

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O fato importante é que, desde cedo, cuidaram da instrução do garoto. A iniciação escolar aconteceu da forma mais comum nas fazendas: com o capelão, no caso, o padre Joaquim Pinto. “Os livros não eram muitos; supprimiam-nos as cartas de mão, como ainda hoje se pratica no longínquo interior”, conta o próprio Teodoro, que estudou ainda no colégio do professor José Joaquim dos Passos, em Santo Amaro. Tudo indica que um dos padres, sendo transferido para São Paulo, levou o garoto. Teodoro foi enviado para um colégio interno em São Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio São Salvador.

Vivendo numa terra estranha, mas determinado, ele seguiu nos estudos até matricular-se na Escola Politécnica Fluminense, em 1872. Enquanto estudava, deu aula em várias escolas e, aos 22 anos, já estava formado em engenharia civil. A sua primeira providência, conta Nei Lopes, foi retornar à Bahia e comprar a alforria da mãe. Também conseguiu comprar ou intermediar a compra da alforria dos irmãos. Iniciou a sua carreira em São Paulo, mas em breve estava de volta ao nordeste: integrado à equipe da “Comissão Hidráulica”, coordenada pelo engenheiro Milnor Roberts. O objetivo era estudar e projetar melhoras no porto de Santos e no rio São Francisco. A equipe começou a viagem por Alagoas e, de lá, seguiu até Minas Gerais, refazendo toda a trajetória do rio e redescobrindo o Brasil. Os sertões, veredas e chapadões, os povoados e suas histórias emocionaram o jovem engenheiro, que registrou minuciosamente tudo o que viu em suas famosas cadernetas.

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As anotações geraram o livro “O Rio de São Francisco e a Chapada Diamantina”, com informações históricas e geológicas, dezenas de mapas inéditos e a nomeação para ser o primeiro engenheiro da Comissão de Melhoramentos do Rio São Francisco. Isto, depois de superar muitas dificuldades. Demonstrando o que enfrentava um negro naquela época, o historiador Santana narra, por exemplo, um episódio da Comissão Hidráulica. Apesar de ter sido convidado para integrar a equipe e participado da apresentação do projeto, feita pelo Ministro, o nome de Teodoro foi omitido na lista dos engenheiros nomeados publicada no Diário Oficial. A omissão foi iniciativa de um oficial de gabinete do ministério, que temia constranger os engenheiros americanos com a presença de um negro. Problema sanado, Teodoro trabalhou durante dois anos no projeto, mas, quando o projeto terminou, “aquele que foi considerado por Rudolf Wiezer, ajudante de Milnor Roberts, ‘the beste brazilian engineer in Mister Robert’s staff’ continuaria tendo um tratamento diferenciado em relação aos demais integrantes da Comissão, que tiveram imediatamente garantidos empregos e promoções. Decorridos seis meses, a única proposta de trabalho seria recusada por ser considerada um rebaixamento”, contou Santana no seu texto “Os engenheiros Euclides da Cunha e Teodoro Sampaio”.

Como aliados, Teodoro tinha a sua competência e alguns amigos. Segundo Santana, a amizade com o Diretor da Sessão de Mineralogia e Geologia do Museu Imperial (atual Museu Nacional), Orville Derby, foi de fundamental importância para o engenheiro, tanto pelas trocas intelectuais, quanto pelos conselhos e intervenções. Em contrapartida, Teodoro também ajudou muitas pessoas. Euclides da Cunha, por exemplo, recorria a ele semanalmente para ajustes no texto de “Os sertões”, que Teodoro ouvia com prazer, por relembrar de um cenário tão querido e pela denúncia sobre o que tinha acontecido em Canudos. Antes mesmo da partida para Canudos, Teodoro já tinha ajudado Euclides, cedendo-lhe anotações sobre o sertão e mapas inéditos da região: “Trecho de sertão ainda muito desconhecido”, conta o engenheiro.

Teodoro adorava São Paulo. Foi por isso que permaneceu por tanto tempo: “Os affazeres me obrigavam e os affectos daquelle povo progressista me prendiam”. Lá, participou de várias comissões governamentais, como a que realizou o levantamento da carta geológica do estado e foi o diretor de saneamento de São Paulo. Também trabalhou em outros lugares, como na reforma urbanística do Rio de Janeiro. Como homenagem ao seu trabalho, existe na capital, no bairro de Pinheiros, uma importante avenida chamada Teodoro Sampaio. Na região oeste do estado há também um município com o seu nome.

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Contratado pela prefeitura de Salvador, em 1904, Teodoro retornou à Bahia. Ele nunca tinha cortado os laços com a cidade e seu filho, inclusive, nasceu aqui, fruto da sua união com Capitolia Maia Sampaio, conta Loureiro de Souza. Apesar de todo o carinho que tinha por Salvador, Teodoro também não deixava de criticar o seu “aspecto decadente” e suas “velharias arraigadas”. Trabalhou o quanto pôde para trazer um sopro de renovação à cidade, atuando em várias áreas. Como engenheiro, promoveu reformas urbanísticas, arquitetônicas, como o prédio da antiga Faculdade de Medicina e cuidou do saneamento da cidade.

Ele encontrava tempo ainda para ser sócio honorário e orador oficial do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, onde realizou discursos como este, em 1919, pronunciando-se contra uma resolução racista: “Não pode haver desmentido mais formal ao ideal de paz e de fraternidade humana, que se quer assentar com a Liga das Nações do que essa doutrina de desegualdade das raças, agora triumphante no seio da Conferência”. Teodoro também teve sua experiência política, elegendo-se deputado federal. Um episódio triste e marcante foi a morte do filho, um engenheiro de apenas 34 anos, que já tinha realizado vários trabalhos e estava atuando na recém criada Escola Politécnica da Bahia.

A educação sempre foi uma das suas preocupações: “No ensino do povo está a nossa salvação, meus senhores, e esse ensino, por desgraça nossa, anda, de ha muito, descurado”, afirmava ele. Pode ser esse o motivo do seu envolvimento tão intenso e produtivo em tantas áreas, resultando em obras importantes como “O tupi na geografia nacional”, “História da fundação da cidade do Salvador” e “Atlas dos Estados Unidos do Brasil”. E também a razão de ter sido um dos organizadores da Escola Politécnica de São Paulo. Em 1937, no Rio de Janeiro, faleceu Teodoro, com 82 anos. Muitas décadas depois, sues restos mortais, diários e outros textos foram confiados ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, na Praça da Piedade, em Salvador, onde estão até hoje, servindo como preciosa fonte de pesquisa.

MÉDICOS ILUSTRES
Na Bahia colonial, palavras como saneamento, higiene e medicina tinham um significado muito diferente do que nós conhecemos hoje. Pequenas cirurgias e extração de dentes ficavam a cargo dos barbeiros. Para os remédios, era preciso confiar na inspiração dos boticários e curandeiros. Mas se a coisa era séria e precisava-se de um médico, quem tinha dinheiro contratava um doutor formado em Coimbra. Quem não tinha, podia ir parar na Santa Casa da Misericórdia: “Um lugar mais temido que a cadeia, nessa época. A assistência pública era a pior possível. A medicina em Portugal era muito mais atrasada do que no resto da Europa e na colônia o desastre era completo”, descreve o antropólogo Renato da Silveira.

 

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Por esse quadro, dá para imaginar a importância do dia em que D. João VI, finalmente, autorizou o funcionamento do Colégio Médico Cirúrgico, em 1808, transformado depois em Faculdade de Medicina da Bahia, em 1832. Começou ali uma batalha imensa para organizar instituições básicas e para que a população mudasse alguns dos seus hábitos, como a predileção por enterrar mortos dentro das igrejas, o que proporcionava um cheirinho inconfundível às catedrais baianas. “A lista de maus hábitos era grande e variada: a disposição de lixo nas vias públicas, a falta de escoamento das águas usadas, alinhamento desordenado das ruas, a arquitetura inadequada dos prédios, os hábitos alimentares extravagantes, a indisposição para exercícios físicos e para a higiene pessoal”, enumera o historiador João Reis, em seu livro “A morte é uma festa”.

Negros e mulatos na Faculdade de Medicina sempre foram poucos e não é nada difícil encontrar relatos sobre ofensas e perseguições sofridas, protagonizadas por algum professor elitista. O que não impediu a presença desses rapazes na escola, como estudantes e até professores, desde o começo. Os irmãos José e Domingos Melo estão entre esses pioneiros. Ambos, além de médicos foram professores dessa instituição no século XIX. Outro médico e professor negro foi Luis Anselmo da Fonseca. Nascido em Santo Amaro, em 1853, ele foi também um homem das letras, como era comum entre os médicos da época. Além dos livros sobre medicina, escreveu trabalhos historiográficos: “O seu livro ‘A escravidão, o clero e o abolicionismo’ é fantástico”, assegura o historiador Cid Teixeira.

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O próprio Cid explica as razões desse fenômeno: “Na verdade, a Faculdade continuadora do Colégio Médico-Cirúrgico foi bem mais uma escola de cultura humanística, uma opção universitária para os que não tinham condições para os estudos europeus de Coimbra ou de Montpelier ou para a freqüência dos cursos jurídicos de Olinda e São Paulo”. Alguns, é claro, amavam tanto as letras quanto a ciência. Um desses foi o médico, deputado, conselheiro e professor Salustiano Souto, que tinha um alto cargo entre os malês da cidade. Vindo do interior – Vila Nova da Rainha –, formou-se logo nas primeiras turmas da faculdade, 1840, e em seu concorrido consultório atendia pobres e abastados. Solteirão, dedicava-se nas horas vagas a estudos religiosos, dirigiu por dez anos o Passeio Público e promovia reuniões sociais em sua casa, reunindo convidados como Castro Alves e Ruy Barbosa, conta Cid.

Outro médico ilustre dessa época foi Manuel Maurício Rebouças, irmão do conselheiro Antonio Rebouças e tio do engenheiro André Rebouças. Após ter trabalhado como escrevente num cartório, ao lado do irmão, lutado nas batalhas da Independência e procurado “em vão por um emprego público”, ele foi para a França, conta o historiador João Reis. Morou e trabalhou lá por sete anos, conseguindo estudar letras, ciências e medicina. Como cientista, Maurício produziu o mais importante trabalho de um brasileiro sobre os enterros nas igrejas. Nessa época, a medicina ainda tateava, usando mais a intuição do que método científico, mas o trabalho de Maurício atualizou os baianos sobre a questão com um oportuno espírito conciliador que muito ajudou a resolver o impasse. Dois outros destaques na sua família são os seus irmãos José, que se formou em regência na Itália e Manuel Maria, que, além de músico, foi pedagogo, conta Reis.

Muitos já tinham vindo antes dele, mas Juliano fez tudo de um modo diferente, pessoal, inovador. As suas grandes marcas eram a extrema bondade no trato com os pacientes, como atestou o escritor Lima Barreto, quando passou por uma internação, e a sua capacidade de trabalho. Juliano aliava uma inteligência incomum com uma generosidade rara. “O pai dele era um homem simples, mas gostava de ler e foi lendo os jornais que o pai comprava que Juliano começou a sua trajetória”, conta o psiquiatra e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Ronaldo Jacobina. Ele teve ainda um padrinho importante, o barão de Itapuã, que talvez fosse patrão de sua mãe. “Já no Liceu, ele revelou um talento incomum e lhe foi permitido cursar ao mesmo tempo a Faculdade de Medicina, por isso ele se formou tão cedo”, explica Jacobina.

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Sendo professor da clínica psiquiátrica e depois atuando no Hospital Santa Isabel e no Asilo São João de Deus, Juliano se tornou famoso como psiquiatra, mas também colaborou em outras áreas. Fez vários trabalhos em dermatologia, inclusive sobre doenças que afetavam principalmente os escravos e foi pioneiro na implantação de exames microscópicos e na criação de laboratórios, que quase não existiam por aqui. Após uma viagem à França e Alemanha, para freqüentar cursos, “ele introduziu aqui a punção lombar como recurso diagnóstico em neurologia e psiquiatria”, cita, como exemplo, Jacobina.

Lendo, escrevendo e falando cinco línguas, produzindo dezenas de artigos publicados em vários países, Juliano tinha como um dos seus maiores prazeres ficar na torre do Solar Boa Vista, de onde se vê o mar e o Dique do Tororó, discutindo questões médicas com colegas e alunos. Na época funcionava lá o asilo que depois passou a se chamar Hospital Juliano Moreira. Como a sua fama corria mundo, um dia veio o convite para assumir uma responsabilidade maior: dirigir o Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro. A grande dúvida para aceitar o convite foi uma razão amorosa: “Ele era apaixonado por uma professora primária de Cachoeira, Honorina, que era mulata. Fez até poemas para ela”, conta Jacobina. Honorina não quis ir para o Rio, mas Juliano foi. Do outro lado do mundo, no Egito, numa de suas viagens em busca de tratamento para a sua tuberculose, Juliano conheceu a mulher com quem se casou, uma alemã.

Do seu trabalho como psiquiatra, no Rio e na Bahia, Juliano deixou um saldo de valor inestimável, que influenciou várias gerações de psiquiatras. Aboliu o uso das camisas e coletes-de-força, mandou tirar grades das janelas, fundou associações médicas, conhecia Freud já no século XIX, introduziu novos tratamentos – como a hidroterapia, a laborterapia e a sonoterapia -, criou um atendimento especial para crianças com deficiência mental e uma escola para preparar enfermeiros, conduziu a elaboração de uma classificação brasileira das doenças mentais. Por tudo isso, e ainda pelos seus pronunciamentos contra todas as formas de racismo e xenofobia, foi homenageado e publicado em todo o mundo. Jacobina acrescenta ainda uma última e importante qualidade do mestre Juliano: “Ele era um incrível formador de discípulos. Todos foram pessoas importantíssimas na psiquiatria brasileira. Seus discípulos nunca romperam com ele. Juliano estimulava todos, nunca apagava o brilho de ninguém”.

CIENTISTAS DO MUNDO
Com a entrada do século XX, a modernidade invade de vez a cidade de Salvador. Certo? Muito pelo contrário, porque a Bahia tinha perdido o bonde da história. Com a proclamação da República e a política do café-com-leite, são Minas Gerais e São Paulo, estados exportadores, que assuem a liderança econômica e tornam-se a vanguarda na educação. A pedagoga Jaci Menezes exemplifica: “Em 1872, a Bahia tinha 15.540 matrículas na escola primária e São Paulo tinha 11.520. Já em 1929, a Bahia tinha 114.207 e São Paulo tinha pulado para 426.274. Sem falar na estrutura que eles construíram: algumas escolas eram palácios”.

Os baianos já tinham conquistado avanços, é claro, mas tudo ainda muito lento. O ensino já era seqüencial, passava-se do primário para o ensino médio e daí, quem pudesse, tentava o vestibular, com prova escrita e oral. Para fazer gratuitamente o ensino médio havia duas opções: a Escola Normal, que só formava professores e não dava acesso ao vestibular, ou o Colégio Central, antigo Liceu Provincial. Só na década de 40, Anísio Teixeira cria novas escolas, descentralizando o ensino médio, conta Jaci. As escolas particulares garantiam um controle maior da clientela, evitando “misturas” e eram a grande opção para quem vinha do interior, porque muitas eram colégios internos. Essa foi a opção, por exemplo, dos jovens Milton Santos, de Brotas de Macaúbas, e Martagão Gesteira, de Conceição do Almeida. Eles tinham se separado de suas famílias por um único motivo: estudar. Se empenharam tanto, que não pararam nunca mais.

 

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Martagão era mulato, Milton era negro. Rapazes inteligentes como eram, sempre souberam que melanina não tem nada a ver com neurônio, caráter ou competência e, assim, trataram apenas de estudar, sem ligar para preconceitos ainda muito em voga naquela época. Martagão optou pela medicina e Milton pela advocacia e jornalismo. Martagão logo cedo descobriu sua vocação para a pediatria e, em 1911, quatro anos após sua formatura, já era assistente da clínica pediátrica cirúrgica e ortopédica. Milton demorou um pouco mais a decidir-se e a descobrir que sua grande paixão era a geografia. Enquanto isso, mantinha seu escritório num prédio da rua Chile e escrevia artigos para o jornal A Tarde.

Martagão logo se tornou professor da Faculdade de Medicina e, em 1915, foi aprovado no concurso para catedrático, defendendo a tese “O exame médico da criança”. A saúde das crianças já era sua grande cruzada, por isso, ser apenas professor não bastava. “Em torno dele foi se reunindo um grupo de profissionais que pesquisava e trabalhava na mesma área, pessoas como Álvaro da Franca Rocha, Álvaro Bahia, Durval Gama, Hélio Ribeiro, Carlos Levindo, Hosanah de Oliveira, Braúlio Xavier, José Peroba”, conta o professor e médico chefe da pediatria do Hospital São Rafael, Nelson Barros. Com esse grupo de médicos, Martagão começou a revolucionar o atendimento pediátrico na Bahia.

Milton também logo começou a se destacar. A essa altura os pais dele, ambos professores, já tinham vindo morar em Salvador e montado uma escola na Estrada da Rainha, conta a geógrafa e professora da Ufba Maria Auxiliadora da Silva, que trabalhou com Milton por várias décadas. Além de escrever para o jornal, ele dava aulas na Universidade Católica de Salvador, até que foi apresentado ao francês Gean Tricart, que o convidou para fazer um doutorado na Universidade de Strasbourg. A sua tese se tornou um livro clássico, “O centro da cidade do Salvador”, mesmo assim, ele teve dificuldade para dar aulas na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, quando retornou para cá. Mas, antes mesmo do impasse ser resolvido, após a morte do diretor que tentava vetá-lo, “o reitor Edgard Santos o convidou para criar um centro de pesquisa”, explica Auxiliadora. Nascia aí o Laboratório de Geomorfologia, que tornou a Bahia um referencial internacional na pesquisa em geografia por muitos anos.

 

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Martagão e seus colegas também trabalharam a todo vapor. Criaram a Liga Baiana contra a Mortalidade Infantil, com um consultório para atendimento, e depois a Sociedade de Pediatria da Bahia. A essa altura, Martagão já tinha ingressado também na administração pública estadual, na área de saúde. O interesse central do seu trabalho, sobre a qual ele publicou livros e fez conferências dentro e fora do Brasil, era a prevenção, o atendimento integral à criança. “Ele criou os postos de puericultura, para orientar e atender também à criança sadia, vacinando, pesando, prevenindo problemas”, explica o pediatra Barros.

Em torno de Milton Santos, a geografia baiana crescia: trabalhos de campo, estudos, visitas de pesquisadores famosos, congressos, encaminhou vários de seus alunos para estudos no exterior. Ele foi nomeado também presidente da Comissão de Planejamento Econômico do Estado (CPE) até março de 1964, quando veio o golpe militar. “Ele foi preso. Ficou no 19º BC por três meses. Íamos lá todos os dias. Foi terrível”. Quando foi libertado, Milton deixou o Brasil, para onde só retornou em 1978.

Martagão também saiu da Bahia, mas por um motivo menos trágico. Getúlio Vargas o convidou para dirigir um órgão de âmbito nacional e o nosso pediatra viajou para o Rio. A acolhida não foi das melhores: “Quando ele entrou para dar a aula inaugural na universidade, foi estrepitosamente vaiado, por causa da forma autoritária como Getúlio fazia as coisas. Martagão não se abalou e deu a aula. Quando terminou, foi ovacionado”, conta Barros. Daí até o final da vida, atuou sempre num âmbito nacional, idealizando campanhas, produzindo monografias, falando em congressos e estruturando o atendimento à saúde da criança no país. Uma marca da sua passagem pela Bahia existe até hoje: o Hospital Martagão Gesteira.

Quando Milton Santos saiu da Bahia, várias universidades estrangeiras o convidaram e ele trabalhou em dezenas delas. Também escreveu muitos livros e ganhou prêmios, como o Vautrin Lud, o Nobel da geografia. Na Bahia, entretanto, Auxiliadora continuava solicitando aos reitores a reintegração de Santos como professor da Ufba, mas, misteriosamente, nunca foi atendida. A Universidade de São Paulo (USP) o convidou então e, em 1984, Milton voltou para o Brasil. Somente em 1995, o reitor Felippe Serpa fez justiça e o reintegrou aos quadros da Ufba. Mas já era tarde: um ano depois ele completou 70 anos e a aposentadoria era compulsória. Em 2001, durante os festejos juninos, Milton faleceu. Como consolo por todos esses anos em que fomos privados da companhia do nosso maior geógrafo, ficou a sua obra.

O primeiro texto escrito por um negro no Brasil que se tem notícia foi a carta de Henrique Dias para o rei de Portugal, em 1650, conta o poeta José Carlos Limeira. Na carta, Henrique reclama do pouco respeito com que é tratado por um general, o que considera indevido, pois dedicou anos de sua vida ao país, como soldado, e até perdeu uma mão em batalha. De lá para cá, muitos outros negros e mulatos aprenderam a escrever, galgaram postos e conquistaram o respeito com o qual Henrique sonhava. Uma geração abriu as portas para a outra, mostrando os caminhos possíveis e que valia a pena tentar.

Essa foi a herança que nos deixaram mulheres como a oftalmologista Cleonice Alakija – talvez a primeira nessa especialidade na Bahia, que atendeu seus clientes no consultório do Relógio de São Pedro até a idade de 90 anos – e a obstetra Esmeralda Vasconcelos, dona de vastíssima clientela “num tempo em que mulher não ia em ginecologista homem de forma alguma”, conta Cid Teixeira. E que também herdamos de homens como Édison Carneiro, advogado, jornalista, escritor, professor, antropólogo, que representou o Brasil em muitos países pelo seu profundo conhecimento da cultura afro-baiana.

Uma herança que ainda está viva em pessoas como George Alakija, “psiquiatra, maior expert em hipnose da Bahia, uma das primeiras pessoas a se especializar no exame do líquido cefalorraquidiano. E, além disso, um verdadeiro príncipe, educadíssimo, uma pessoa culta, que sempre tem uma história para contar, fala de uma maneira meio oriental, por parábolas”, define o psiquiatra Gabriel Nery. Herança viva também em pessoas como o engenheiro, assessor técnico da Uneb e poeta José Carlos Limeira.

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Traduzido em várias línguas, premiado, integrante de um movimento literário que ficou conhecido pelos “Cadernos Negros”, publicados em São Paulo, na década de 70. Antonio, Cosme, Manoel, Teodoro, André, Salustiano, Juliano, Milton, Martagão e tantos outros cidadãos baianos ilustres são nomes que a maioria de nós desconhece ou apenas ouviu falar. Mas precisam ser nossas fontes de inspiração cotidianas, pela preciosa lição que nos deixaram, sintetizada nesse pensamento de Mahatma Gandhi: para progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.

Fotos: Acervo Instituto Histórico e Geográfico da Bahia / Reprodução do livro “André Rebouças – Reforma & Utopia no Contexto do Segundo Império” / Reproduções do livro “A mão afro-brasilieira” / Reprodução do livro “Cartas de Édison Carneiro a Artur Ramos” / Foto de Edmar Melo / Foto de Claudionor Junior / Foto de Marcio Costa

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11 respostas em “Mudando o rumo da história

  1. Gostaria de parabenizar o site, pois é satifatório saber que a internet também é um meio de se transmitir realidades históricas que por muito tempo foram negadas ao negro.E esse texto traz algo que a sociedade deveria saber pois, estou cansada de ver comerciais e novelas que traduzem que porfissões consideradas superiores(ex. medicina)devem ser ocupadas pelos brancos quando, quem tem conhecimento sabe que existiram e ainda existem médicos negros brilhantes que tiveram contribuições importantes para o mundo inteiro.

  2. Aprendi muito com a histôria desses grandes homens.so entrei no google para pesquisar sobre um grande homen chamado “Cosme de farias”,mas aprendi sobre outro grandes homens.

  3. Thainara,

    Oi. De fato, são histórias impressionantes, não é? Se você precisar de mais informações sobre o major, posso lhe indicar uma pesquisadora que fez mestrado sobre ele.

    abç

    Agnes

  4. Fantástica esta reportagem divulgando as grandes expressôes da nossa gente.Poucas vezes lembramos de fazer isso e não exaltar os índices de criminalidade ,fome e miséria que acompanham o povo afrodescendente. Este talvez fosse um processo de incentivo as nossas crianças e jovens para demonstrar que somos capazes,sim.

  5. Muito boa matéria. Estou fazendo uma dissertação sobre a atuaçãode Martagão Gesteira na Bahia e fiquei interessada em saber as fontes que vocês utilizaram para falar da vida dele. Parabéns pelo site e pelo trabalho desenvolvido!

  6. Lidiane,

    Olá. Obrigada pelos elogios!
    Existem vários livros antigos sobre “baianos ilustres”. Em alguns deles você certamente encontrará referências a Martagão. Depois de ler algumas coisas breves conversei com o médico Nelson de Carvalho Assis Barros que cito na reportagem. Ele era o chefe da pediatria do Hospital São Rafael e se interessava muito pela história de Martagão. Acredito que você possa encontrar materiais interessantes também no Instituto de Puericultura, no Campo Campo Grande, em Salvador. Boa sorte.

    Abç

    Agnes Mariano

    • Olha que final de tarde gratificante: passei o dia fazendo pesquisa sobre J. Amado, parei já cansado, fadigado. E como não tinha nada para fazer debrucei-me novamente na net para ler algo sobre minha pesquisa e para minha felicidade: deparo-me com esse material maravilhoso e cheio de pormenores sobre esses atores sociais que conhecemos de nomes, por intermédio de leituras, más que não conhecemos a fundo seus feitos e contribuições para nossa história. Sou grato…

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